A halitose ou mau-hálito pode ser um sintoma importante de algum transtorno orgânico que deve ser pesquisado, diagnosticado e tratado.      A condição do indivíduo que encontra-se com halitose pode significar uma importante degeneração de condições sociais e de trabalho.   O convívio nos casos crônicos torna-se um problema que refleti diretamente nos relacionamentos do convívio direto do afetado principalmente porque o mesmo muitas vezes não percebe sua situação.

Mau hálito (halitose) nas relações pessoais e profissionais
Dra.Luciana Nobile – Supervisionado pela Dra. Rita Gonçalves de Almeida, cirurgiã dentista

Fazendo uma brincadeira de plagiar aqueles que com um português equivocado disseram “começar pelo começo”, assim farei na abordagem do mau hálito, também designado
halitose. Cuidados com a dentição desde a vida intra-uterina farão diferença na vida adulta, interferindo com o odor da cavidade bucal. É colocar em prática, desde cedo, a medicina e a odontologia preventivas, para a vida adulta mais saudável.

Quem tem algum familiar sofrendo com próteses dentárias, implantes, ou dificuldades na mastigação, consegue perceber a diferença que faria se essas intercorrências tivessem sido evitadas com uma abordagem mais precoce.

A higiene na infância

Crianças com cuidados dentários precoces e dieta adequada, provavelmente não terão cárie na vida adulta.

Esse avanço inclui o uso adequado do flúor desde a vida intra-uterina, a limpeza da cavidade bucal com gaze e água antes mesmo da erupção dos dentes, as consultas periódicas ao dentista, o uso do fio dental a partir da erupção dos primeiros dentes de leite, a escovação após as refeições e principalmente antes de dormir, evitar o uso de carbohidratos tais como doces, balas e caramelos e também os salgadinhos fora de hora, ou escovar os dentes logo após seu consumo.

Inicialmente, escovação e uso de fio dental devem ser praticados com a ajuda dos pais ou de outra pessoa disposta e com boa vontade para orientar cada passo, ressaltando que o uso da escova deve ser individual: as bactérias que habitam a boca do adulto são diferentes da boca da criança e aí podem provocar cáries.

A pasta de dente deve ser introduzida só a partir dos quatro anos e em pequena quantidade, pois contém flúor. A criança pequena no início engole parte da pasta da escovação, ingerindo portanto, flúor em quantidade tóxica.

O flúor durante a gestação é administrado através da água fluoretada e é bom lembrar que quase toda a água corrente do estado de São Paulo contém quantidade adequada desse elemento, que quando em excesso prejudica a formação óssea do feto.

Na minha infância, não se ensinava escovação. Hoje, existem técnicas, ensinadas pelos dentistas, que orientam também o tipo de escova dental(pessoalmente, prefiro as macias), os movimentos, como massagear a gengiva, a escovação de língua, um monte de novidades e provavelmente também alguns modismos. Cada vez que tenho que comprar uma nova escova, fico estupefata com a quantidade de novos modelos, cabeça grande, média e pequena, cerdas macias, médias e duras, cabos flexíveis, com cerdas direcionadas para vários lados, cada agrupamento de cor diferente, escovas elétricas, embalagens com informações em espanhol e português, como se nossa boca fizesse parte de um novo contexto, de uma nova civilização.

Existem também uns dispositivos simples de plástico que auxiliam na limpeza da língua, pois aí também se acumulam bactérias, cuja proliferação promove os odores indesejáveis.
Isso tudo é muito legal na teoria, mas na prática, sabemos que muita gente de nossa população nem tem poder aquisitivo para comprar sabonete para a higiene íntima ou pasta de dente, mesmo desconsiderando aqueles que não dispõem de casa e banheiro para morar. Aqui, mais uma vez esbarramos nas diferenças econômicas em que vivemos nesse país.

Na vida adulta

Os adultos de hoje, mesmo os de melhor poder aquisitivo ou nível intelectual, estão correndo atrás do prejuízo da ignorância de outros tempos. Dentes ruins, próteses, blocos, cerâmica, implantes dentários, enxertos ósseos, titânio, dentaduras, etc. As faculdades de odontologia proliferam-se e fica difícil avaliar qual é o bom profissional para cada tipo específico de procedimento. E a gente segue a indicação de um(a) amigo(a), ou a de outro(a) dentista.

sofisticação da odontologia na área de implantes e enxertos é um privilégio para poucos, apesar de ter tido seus custos reduzidos e a sua prática se tornado mais difundida nos últimos anos.

Qualquer opção que se faça de tratamento, mais caro ou mais barato, exige uma boa higiene para ser bem sucedida. Mas os profissionais muitas vezes se esquecem de orientar como proceder a essa faxina oral. Esquecem-se de que quando crianças, nós não fomos bem orientados em relação à escovação.

Essencialmente, para evitar a halitose, afora os cuidados dentários descritos na “higiene na infância”, devemos evitar tudo que possa ser fator causal, conforme exposição abaixo.
É bom lembrar que para enfrentar a rotina da higiene oral adequada, muitos se deparam com a preguiça ou o pouco caso, numa falta de consideração com quem os rodeia. Por outro lado, mesmo tendo a informação e o interesse, mudanças de hábito ou de comportamento não são incorporados facilmente na rotina.

Causas da halitose/mau hálito

Nosso hálito depende fundamentalmente da qualidade dessa higiene, fio dental e escovação, que inclui a língua, após todas as refeições, mas também é influenciado pela limpeza nasal, talvez pelo refluxo gastroesofágico, pela dieta e por outros fatores que nem sempre conseguimos determinar.

Em quem tem próteses removíveis o trabalho é mais complicado, os cuidados com elas devem ser explicados minuciosamente pelo(a) dentista, visto que em geral são usadas por idosos, que têm mais dificuldades em seu manuseio. Elas escondem resíduos de alimentos, que se deterioram dentro da boca se essas próteses não forem sistematicamente removidas e higienizadas.

Inúmeras circunstâncias podem provocar o mau hálito/halitose. E quem tem a halitose crônica, não se dá conta, não percebe: é como se a pessoa se “acostumasse” com o cheiro desagradável.

sinusite, crônica ou aguda, quando presente, também pode provocar mau hálito, chamado de halitose. O mau odor da sinusite é mais nasal do que oral, mas também interfere no hálito. Um cuidado simples para quem tem predisposição à sinusite é lavar as narinas com soro fisiológico, desses que vendem em farmácia para lavar lentes de contato, que é a mesma coisa de uma mistura de água com sal de cozinha. Coloca-se o soro na palma da mão e aspira-o pelo nariz, soltando-o pela boca. É conveniente fazer isso encima da pia, para evitar molhar o banheiro todo, repetindo o movimento umas três ou quatro vezes e ao menos uma vez ao dia. Afora esse cuidado doméstico, deve procurar um(a) especialista para tratamento específico. Essa manobra para a limpeza nasal pode ser adotada por todos, principalmente os que padecem do mau hálito. Deveria ser incorporada à rotina da higiene oral.

Para aqueles(as) que não se adaptam ao método, já que muitas pessoas têm náuseas ou simplesmente aflição com essa manobra, resta a possibilidade de usar nebulizadores ou conta-gotas, que também possibilitam o mesmo resultado.

Outra causa de halitose é a ingestão de alguns tipos de alimentos mais fortes ou condimentados. Algumas pessoas têm o hálito mais sensível que outras a esses alimentos, por exemplo, à cebola crua, que mantém um cheiro forte mesmo após a escovação cuidadosa.

Eu me lembro, na adolescência, de um paquerinha, que exalava cheiro de alho em sua roupa, o que me incomodava sobremaneira quando ia dançar com ele nos bailinhos do clube de minha cidade natal. Entretanto, no hálito não aparecia o odor do condimento, porque o alho parece sair pelos poros, no suor, quando ingerido em excesso.

Alguns alimentos, provavelmente por deficiência enzimática específica, provocam um efeito “memória” em alguns indivíduos, que ficam com eructação (arroto) por horas depois da ingestão. Alguns desses alimentos são: pepino, rabanete, pimentão, alho, melancia e melão. O indivíduo pensa que a eructação, quando silenciosa, não incomoda os “vizinhos”, se esquece que o odor “sem som”, por vezes muito desagradável, também é percebido por quem está perto.

Durante a noite produzimos menos saliva, reduzindo a renovação e a circulação do conteúdo bucal, predispondo portanto à proliferação das bactérias da boca. Se tivermos resíduos de alimento, essa proliferação bacteriana será maior, e o mau hálito pela manhã será muito pior. Portanto, a higienização oral noturna, antes de se deitar, é fundamental. Assim mesmo, ao acordar, o hálito não é dos dez mais, quando então devemos ter a delicadeza de evitar um contato mais íntimo antes de nova escovação. E quem sabe, usar então o soro fisiológico para lavar as fossas nasais?

E o cigarro? Como ex-fumante, acho que estou ficando muito chata com o cheiro do cigarro. Percebo muito rapidamente o (mau) hálito de fumante, que pode ser agravado pela mistura com o odor de muito café. Lembro-me de uma situação recente, em que tive que ficar horas ao lado de um profissional com um hálito horroroso de cigarro, sem que eu nada pudesse fazer, a não ser manter uma distância “de segurança”. Antigamente, nunca me ocorreu que o cigarro pudesse provocar hálito tão desagradável. Atualmente, após três anos de ter abandonado o vício, me engajo na luta contra o cigarro, devido aos malefícios em potencial que ele pode acarretar, apesar de ainda com vontade de fumar. Ao menos até que descubram ou inventem um cigarro que comprovadamente não nos faça mal.

A halitose e as relações sociais e afetivas

Não é difícil compreender a interferência da halitose no relacionamento amoroso. Algumas pessoas se adaptam ou são menos suscetíveis aos cheiros. Têm também aquelas que apresentam uma diminuição do olfato e portanto, são mais tolerantes.

Num início de relacionamento, pode acontecer da questão do mau hálito ser devidamente abordada, ou ser motivo de rompimento.

Também pode ocorrer da pessoa esmerar-se mais nos cuidados pessoais no início do relacionamento e, com o tempo, ir negligenciando, seja na higiene oral, seja até mesmo na higiene corpórea ou genital, o que acaba por deteriorar o relacionamento. E não tenho dúvida de que tudo isso é muito delicado para ser discutido pelo casal.

Quando abordei a questão da separação de banheiros para preservar o casamento (boletim #00), pode ter parecido fútil para algumas pessoas, mas a manutenção da privacidade, a preservação dos espaços físicos e emocionais, e mostrar respeito através da higiene pessoal, são fatores importantes na longevidade do relacionamento harmônico e feliz, que podem passar desapercebidos ou sem discussão, minando lentamente uma relação.

Na situação de um(a) amigo(a) ser o portador de mau hálito, a sua presença muito próxima é desagradável, a gente quase que desvia o rosto para conversar mais de perto, cria-se situações embaraçosas o tempo todo, e como lhe dizer que o seu hálito incomoda?! A verdadeira amizade prevê que a gente seja sincera e converse a respeito ou simplesmente tente “ignorar” o fato? Como o(a) amigo(a) costuma receber esse tipo de abordagem?
Durante a minha vida, tantas vezes ouvi queixas de que fulano ou cicrana tinham mau hálito, de pessoas que nunca encararam a possibilidade de discutir o assunto com quem de fato interessava. Nas poucas vezes em que me atrevi a falar com as pessoas sobre o problema, consegui uma melhora, ao menos parcial do hálito do(a) interlocutor(a).

Halitose na vida profissional

Nas relações profissionais, a situação da halitose pode ser ainda mais complexa. Numa entrevista para preenchimento de vaga de trabalho, se a halitose é tão forte que o entrevistador perceba, o candidato é automaticamente eliminado, a não ser que a tarefa não envolva qualquer relacionamento com terceiros no ambiente profissional. Quando o indivíduo com halitose é selecionado e o “desconforto” só é observado tardiamente, também é causa de avaliação desfavorável do(a) funcionário(a), independente de seu desempenho pessoal.

Mas vale o exercício mental da situação do profissional que trabalha com público, às vezes muito próximo, como o caso de dentistas. Imagine seu(sua) dentista, sentado ao seu lado, tão próximo que possa perceber a sua respiração, em geral por não menos do que uma hora, com hálito desagradável?! Daria para agüentar? Bem, felizmente essa é a situação profissional menos provável, pois dentistas cuidam de sua higiene oral melhor que qualquer outra especialidade!

Entretanto, essa situação pode ser extrapolada para qualquer outra profissão, em tarefas que envolvam relacionamento com público: caixas, vendedores(as), médicos(as), recepcionistas, empregados(as) domésticos(as), garçons e garçonetes, arquitetos(as), advogados(as), técnicos(as) em informática, etc.

Se eu começar a examinar minhas pacientes com bafo de cebola, acredito que em menos de seis meses não terei mais pacientes para examinar, ocorrerá uma debandada geral, que me obrigará a fechar o consultório.

Acredito que muitos indivíduos devem ter provocado situações desconfortáveis em suas relações profissionais, em decorrência da halitose, sem que nunca lhes tenha sido concedido a oportunidade do conhecimento sobre o seu mau hálito. Justa ou injustamente, muitos foram por isso demitidos, sem que o problema fosse algum dia abordado. Mas o hálito faz parte da “apresentação” do profissional, assim como a sua higiene geral, suas vestes ou a sua postura. Por vezes, quando ruim, pode superar a sua competência ou o desempenho no trabalho em sua avaliação.

Quando o mau hálito é ocasional, do tipo provocado por uma infecção dentária, por amidalite ou pela ingestão aguda de um alimento muito condimentado, às vezes podemos percebê-lo. Entretanto, quando é determinado por causas crônicas, como a gengivite infecciosa ou a má higiene usual, é como se o organismo se acostumasse com o cheiro e não mais o percebesse.

Quem sente o mau hálito em alguém, fica constrangido em dizer e, quando o diz, a pessoa portadora da halitose, em vez de agradecer e ir procurar um diagnóstico e solução, fica ofendida e se afasta.

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